Fico imaginando nós duas, já velhinhas, com as marcas que o tempo deixou em nossos rostos. Sentadas em frente ao mar, vendo as ondas chegar até a areia. Gosto de fantasiar esse momento em minha cabeça. Onde já teremos vivido quase as nossas vidas toda e ainda sim continuaremos encontrando algo novo para fazermos juntas. Seus olhos fechados, sentindo a brisa marítima, cabelos já ralos e brancos, porém ainda lindo em teu rosto que rapidamente com minhas mãos irei tirá-los dos teus olhos, com todo amor e carinho que ainda existirá em mim. Segurando tuas mãos firmemente como alguém que não quer se perder, ali permaneço ao teu lado, curtindo o momento. Vez por outra, fico imaginando nós duas, velhinhas, você ainda muito vaidosa, porém já com mãos fracas, sem a mesma habilidade de antigamente ao se maquiar. Então, eu mesma, com dificuldades, lhe maquio e lhe mostro pelo pequeno espelho o quão você ainda continua linda. Também pintarei as tuas unhas, mesmo com as minhas mãos trêmulas devido a minha idade. Nós duas confortáveis numa cadeira de balanço, na nossa pequena varanda, a observar o trabalho das formigas. Como fazíamos quando ainda éramos jovens e brilhantes. As flores da primavera com todo o teu perfume e delicadeza, o sol enfraquecendo com o cair da tarde e nós duas, como sempre, de mãos dadas, esperaremos por mais um lindo pôr-do-sol. Por vezes, imagino nós duas deitadas, uma ao lado da outra. Você lendo pra mim, devido à limitação da minha visão cansada. E eu ficarei ali, te ouvindo, enroscada ao teu corpo já pequeno e frágil. E quando eu fechasse meus olhos, seria como agora. É assim que eu vou te sentir pra sempre: Linda, perfumada, pele macia e lisa. Naquele momento não haverá mais tempo. O tempo não existe para quem ama. Seremos apenas duas pessoas que se amaram até o fim, como está escrito em algum lugar do passado. Porque amor, quando é verdadeiro não se desbota, não se desgasta. Ele permanece, com suas cores vivas.